O futebol brasileiro movimenta milhões de torcedores e alcança algumas das maiores audiências esportivas do continente. Mesmo assim, empresas globais como Coca-Cola, Pepsi, KFC, BBVA, Hyundai e Smart Fit aparecem como patrocinadoras de clubes em outros países latino-americanos, mas seguem fora das camisas da Série A brasileira.

Esse contraste aparece na edição de 2026 do estudo “Por que, ainda, não aqui?”, publicado pelo IBOPE Repucom e baseado na comparação entre os 20 clubes da Série A e 66 equipes relevantes de outros dez mercados da América Latina.

Quais marcas estão fora das camisas brasileiras?

O levantamento mostra vários exemplos de empresas presentes comercialmente no Brasil, mas que patrocinam clubes em outros mercados.

Entre elas estão:

  • Coca-Cola e Pepsi;
  • Gatorade e Powerade;
  • KFC;
  • BBVA;
  • Claro e Movistar;
  • Hyundai e Kia;
  • Smart Fit;
  • Sodimac.

Isso não significa ausência completa dessas empresas do esporte brasileiro. O estudo analisa especificamente os patrocínios de camisa dos clubes da Série A.

Governança e reputação ainda pesam

Especialistas ouvidos pelo UOL apontam que a reputação institucional dos clubes continua sendo uma barreira.

Problemas históricos como dívidas elevadas, baixa profissionalização, infraestrutura insuficiente e falta de estabilidade na gestão já haviam aparecido nas primeiras edições do estudo como fatores relatados por executivos de grandes empresas.

Para uma multinacional, a decisão de patrocinar envolve mais do que quantidade de torcedores.

Governança, previsibilidade contratual, capacidade comercial e estrutura profissional para executar ativações também entram na avaliação.

O problema também está no produto oferecido

Há outro ponto central: muitos clubes ainda vendem principalmente exposição de marca na camisa.

José Colagrossi, responsável pelas primeiras edições do estudo, argumenta que grandes patrocinadores procuram ativos capazes de gerar dados, relacionamento, hospitalidade, comércio, conteúdo e conversão — e não apenas visibilidade.

O próprio IBOPE Repucom defende que exposição e produção de conteúdo passaram a ser o básico. O diferencial está na capacidade do clube de transformar sua base de torcedores em relacionamento comercial mensurável por meio de ingressos, sócio-torcedor, lojas oficiais e outros canais.

Patrocínio no Brasil está ficando mais caro

Isso não significa que o mercado brasileiro esteja fraco.

Segundo o IBOPE Repucom, a média anual dos contratos de patrocínio máster da Série A em 2026 chegou a aproximadamente R$ 70 milhões por clube, o maior patamar desde 2018 mesmo considerando a correção pela inflação.

O desafio, portanto, não é apenas encontrar empresas dispostas a investir.

Quanto maior o valor pedido pelos clubes, maior também a exigência sobre aquilo que o patrocinador receberá em troca.

Montadoras chinesas mostram que existe espaço

O setor automotivo oferece um exemplo de mudança rápida.

Em 2024, havia apenas um contrato automotivo entre os clubes da Série A. Em 2026, são dez.

A expansão foi puxada principalmente pelas novas montadoras:

BYD: Bahia e Corinthians
Leapmotor: Palmeiras
GAC: Flamengo
GWM: Chapecoense

O automotivo foi o setor que mais cresceu no período.

Isso mostra que o futebol brasileiro consegue atrair multinacionais quando existe interesse estratégico claro na entrada ou expansão de uma marca no mercado nacional.

Mercado também precisa se adaptar ao recuo das bets

Outra transformação ocorre com as casas de apostas.

Antes das mudanças regulatórias de 2026, 14 dos 20 clubes da Série A possuíam contratos com empresas do setor. O número já representava queda de 18% em relação a 2024.

Ao mesmo tempo, outras áreas avançaram.

Entre 2024 e 2026:

  • setor automotivo passou de 1 para 10 contratos;
  • imobiliário e construção passou de 3 para 11;
  • alimentação chegou a 16 contratos;
  • financeiro alcançou 29 contratos.

A diversificação já começou.

Conclusão

O futebol brasileiro não sofre com falta de audiência ou ausência de interesse comercial.

O problema apontado pelo estudo e pelos especialistas está principalmente na capacidade de transformar essa audiência em um produto de patrocínio mais sofisticado e previsível.

Grandes marcas globais procuram governança, dados, relacionamento, experiências e retorno mensurável.

A entrada das montadoras chinesas demonstra que existe espaço para novos investidores. O desafio dos clubes é provar que conseguem oferecer mais do que milhões de torcedores e espaço em uma camisa.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui