Elenco suspendeu treinos por salários atrasados que chegam a seis meses em alguns casos, Márcio Zanardi pediu demissão e a Macaca, lanterna da Série B, tenta evitar que a crise administrativa termine em mais um desastre esportivo.
A Ponte Preta atravessa um dos momentos mais graves de sua história recente.
Nesta quarta-feira, 26 de agosto, o elenco profissional decidiu paralisar as atividades por causa de salários e direitos de imagem atrasados, enquanto o técnico Márcio Zanardi deixou o comando da equipe poucas horas depois.
A crise ocorre em um cenário esportivo igualmente preocupante.
A Ponte é a lanterna da Série B, soma apenas 10 pontos em 24 partidas, não vence há 18 rodadas e caminha para um segundo rebaixamento na mesma temporada depois de já ter caído no Campeonato Paulista.
Agora, o problema deixou de ser apenas desempenho em campo.
O clube precisa garantir que conseguirá montar uma equipe para enfrentar o América-MG no domingo e, simultaneamente, encontrar uma solução para um conflito trabalhista que envolve praticamente todo o elenco.
Jogadores da Ponte Preta paralisam atividades
Os atletas se apresentaram normalmente ao CT do Jardim Eulina na manhã de quarta-feira.
Mas não treinaram.
O grupo entregou uma notificação formal à diretoria informando que suspenderia as atividades até que as pendências financeiras fossem regularizadas.
Segundo a nota divulgada pelos próprios jogadores, alguns atletas acumulam até seis meses de salários e direitos de imagem atrasados.
O comunicado foi assinado por 27 jogadores, de acordo com os advogados que representam o grupo.
A paralisação inclui não apenas os treinamentos, mas também a possibilidade de os atletas se recusarem a disputar partidas enquanto o problema persistir.
Jogadores dizem viver “sentimento de abandono”
O tom da manifestação foi especialmente duro.
Os atletas afirmaram que, além dos atrasos, existe uma ausência de respostas e garantias por parte da administração.
O grupo utilizou a expressão “sentimento de abandono” para descrever a relação atual com a diretoria.
Os jogadores afirmam que já haviam concedido prazo para que as pendências fossem regularizadas.
Esse prazo terminou em 25 de agosto.
Sem pagamento, decidiram suspender as atividades no dia seguinte.
Lei permite recusa quando salários atrasam
A decisão dos atletas possui respaldo jurídico.
A nota cita o artigo 90, parágrafo 5º, da Lei Geral do Esporte, que permite ao atleta profissional recusar-se a competir quando houver atraso salarial por dois meses ou mais.
Isso torna a situação especialmente delicada para a Ponte.
Não se trata apenas de um protesto informal.
Existe uma disputa trabalhista com base legal e possibilidade concreta de os atletas manterem a paralisação caso não haja acordo.
Advogado relata situações pessoais graves
O advogado Felipe Rino, que representa os jogadores, afirmou que a situação financeira dos atletas chegou a níveis extremos.
Segundo ele, existem jogadores enfrentando dificuldades para cumprir compromissos pessoais básicos em razão dos atrasos.
Rino relatou inclusive casos envolvendo atraso de pensão alimentícia e afirmou que alguns atletas estariam praticamente “pagando para trabalhar”, considerando despesas pessoais necessárias para continuar treinando e atuando sem receber regularmente.
O relato ajuda a dimensionar como a crise financeira do clube já ultrapassou o futebol.
Márcio Zanardi deixa o comando
No mesmo dia em que o elenco interrompeu as atividades, a Ponte perdeu também seu treinador.
Márcio Zanardi pediu demissão.
A saída foi comunicada à diretoria na tarde de quarta-feira e confirmada oficialmente pelo clube posteriormente.
A decisão ocorre em um ambiente de enorme instabilidade.
Zanardi já trabalhava com elenco reduzido e convivendo com saídas frequentes de jogadores.
Agora, a Ponte precisa encontrar um novo técnico enquanto ainda nem sabe exatamente qual elenco estará disponível para os próximos compromissos.
Ponte procura Gilson Kleina
Nesta quinta-feira, 27 de agosto, a diretoria passou a trabalhar com o nome de Gilson Kleina para assumir o comando.
As conversas aparecem justamente no momento em que o clube tenta reorganizar seu departamento de futebol após a saída de Zanardi.
Kleina possui uma relação conhecida com a Ponte e experiência em situações de pressão.
Mas qualquer treinador que aceite o cargo encontrará um problema que vai muito além de escalação ou sistema tático.
O principal desafio é estrutural.
Série B virou cenário de desastre
Dentro de campo, a situação é praticamente desesperadora.
A Ponte soma:
10 pontos em 24 partidas.
É a última colocada da Série B.
Além disso, está há 18 rodadas sem vencer.
A distância para o primeiro time fora da zona de rebaixamento já é muito grande.
O clube entrou na competição tentando reconstruir o projeto esportivo, mas rapidamente perdeu competitividade.
Ponte já foi rebaixada no Paulista
A crise da Série B não é isolada.
No primeiro semestre, a Ponte já havia sido rebaixada no Campeonato Paulista.
A campanha estadual terminou com apenas um ponto.
Caso caia também na Série B, a Macaca sofrerá dois rebaixamentos na mesma temporada.
Isso representaria um dos piores anos esportivos da história do clube.
Clube enfrenta dois transfer bans da FIFA
A crise financeira também afeta diretamente o mercado.
A Ponte convive com dois transfer bans impostos pela FIFA, que limitam a capacidade de registrar novos jogadores até que determinadas pendências sejam resolvidas.
Isso cria um ciclo difícil.
O clube precisa reforçar o elenco para reagir esportivamente.
Mas a situação financeira impede novas contratações e provoca a saída de jogadores já vinculados.
Jogadores importantes já deixaram o clube
A Ponte perdeu nomes relevantes ao longo da temporada.
Jogadores como William Pottker e David Braz conseguiram rescindir seus contratos em meio à crise.
Outros atletas chegaram ao clube e saíram antes mesmo de conseguir estrear.
O elenco profissional foi ficando progressivamente menor.
Agora, com a paralisação, a diretoria pode precisar recorrer às categorias de base.
Ponte pode usar jogadores da base contra América-MG
O próximo jogo está marcado para domingo, contra o América-MG, em Belo Horizonte.
Com os profissionais paralisados, existe a possibilidade de a Ponte utilizar jogadores das categorias de base.
A diretoria afirma que o clube entrará em campo e descarta risco de W.O.
Mas a situação pode mudar dependendo do andamento das negociações com o elenco.
Por isso, a preparação para a partida está completamente comprometida.
W.O. teria consequências ainda maiores
Uma ausência em jogo oficial poderia ampliar a crise.
Além das consequências esportivas previstas no regulamento, um W.O. prejudicaria ainda mais a imagem institucional do clube.
Por isso, a diretoria trabalha para garantir presença no jogo independentemente da paralisação.
A utilização da base aparece como plano emergencial.
Discussão sobre SAF também virou foco da crise
A diretoria tenta encontrar uma saída estrutural por meio da transformação do futebol em SAF.
Existe uma proposta de aproximadamente R$ 1 bilhão de um grupo interessado em assumir o projeto.
O modelo apresentado prevê:
- R$ 300 milhões para pagamento de dívidas;
- R$ 300 milhões para investimento no futebol ao longo de dez anos;
- R$ 400 milhões para modernização do Moisés Lucarelli e melhorias no CT.
A operação, porém, ainda não foi concluída.
Assembleia da SAF terminou em confusão
A expectativa era que uma assembleia realizada nesta semana ajudasse a avançar o processo.
Isso não aconteceu.
A reunião foi suspensa em meio a tensão e confusão entre integrantes da situação e da oposição.
Decisões judiciais também interferiram no andamento do processo.
Sem definição sobre a SAF, o dinheiro que poderia aliviar imediatamente parte da crise também não chegou.
Aporte inicial poderia ajudar a pagar salários
Havia expectativa de um aporte financeiro antecipado caso o processo de SAF avançasse.
Esse dinheiro poderia ser utilizado para regularizar parte das pendências com jogadores e funcionários.
Com a paralisação da assembleia, a solução perdeu velocidade.
É nesse contexto que o elenco decidiu interromper as atividades.
Como um campeão da Série C chegou a esse ponto?
A queda é especialmente impressionante porque há menos de um ano a Ponte vivia um cenário completamente diferente.
O clube conquistou a Série C e retornou à segunda divisão nacional.
A expectativa era de recuperação esportiva.
Em poucos meses, porém, problemas financeiros e administrativos desestruturaram o projeto.
O contraste entre o título recente e a situação atual mostra a velocidade da deterioração.
Série B expôs fragilidade do projeto
Subir de divisão exige aumento de competitividade.
A Ponte, entretanto, entrou na Série B sem conseguir formar uma estrutura financeira compatível com a competição.
Os atrasos aumentaram.
Jogadores saíram.
O elenco perdeu qualidade.
Os resultados pioraram.
Com derrotas e redução das receitas esportivas, a situação financeira se tornou ainda mais difícil.
Esse ciclo ajuda a explicar os dez pontos conquistados em 24 rodadas.
SAF não resolve automaticamente o problema
A proposta de R$ 1 bilhão naturalmente chama atenção.
Mas uma SAF não é uma solução automática.
É necessário avaliar:
- identidade do investidor;
- origem dos recursos;
- cronograma de aportes;
- obrigações assumidas;
- governança;
- percentual de controle;
- proteção da associação;
- destino das dívidas.
O valor total anunciado pode ser relevante, mas importa tanto quanto a forma e o prazo em que o dinheiro será aplicado.
Dívida precisa ser comparada com capacidade de geração de receita
A crise da Ponte também ilustra uma diferença importante em relação a outros casos financeiros do futebol brasileiro.
Um clube pode possuir centenas de milhões em obrigações e ainda funcionar normalmente se tiver receitas compatíveis.
O problema da Ponte é que o atraso chegou diretamente a:
- salários;
- direitos de imagem;
- fornecedores;
- registro de jogadores.
Isso mostra uma dificuldade concreta de fluxo de caixa.
É muito diferente de simplesmente possuir parcelas futuras previstas em balanço.
Paralisação é sinal de que o limite foi ultrapassado
Clubes brasileiros convivem historicamente com atrasos.
Mas quando praticamente um elenco inteiro interrompe treinamentos e ameaça não disputar partidas, o problema já alcançou outro nível.
A crise deixa de ser apenas contábil.
Ela passa a impedir o funcionamento esportivo da instituição.
É exatamente onde a Ponte chegou.
Torcida também cobra solução
A Ponte possui uma das torcidas mais tradicionais do interior paulista.
O cenário atual aumenta a pressão sobre a diretoria.
O risco de um novo rebaixamento, somado à possibilidade de perda de jogadores e à instabilidade da SAF, gera incerteza sobre o próprio planejamento para 2027.
Mesmo que a equipe consiga terminar a Série B normalmente, o clube precisará reconstruir sua estrutura praticamente do zero.
O que pode acontecer agora?
Os próximos passos dependem principalmente de três frentes.
- Pagamento aos jogadores
Sem algum tipo de acordo, a paralisação pode continuar.
- Definição do comando técnico
Gilson Kleina aparece como principal nome discutido.
- Processo da SAF
A aprovação ou rejeição da proposta pode definir o futuro financeiro do clube.
Esses três elementos estão diretamente conectados.
Conclusão
A Ponte Preta vive uma crise que já ultrapassou todos os limites esportivos.
Jogadores suspenderam as atividades após atrasos salariais que, em alguns casos, chegam a seis meses.
Márcio Zanardi pediu demissão.
O clube ocupa a lanterna da Série B com apenas 10 pontos, não vence há 18 rodadas e corre risco de sofrer o segundo rebaixamento de 2026.
Enquanto isso, a tentativa de transformação em SAF permanece travada por disputas políticas e jurídicas.
A diretoria garante que a Ponte enfrentará o América-MG no domingo, mesmo que precise utilizar atletas da base.
Mas esse jogo é apenas o problema imediato.
A questão central agora é maior:
como reconstruir um clube que perdeu competitividade, capacidade de pagamento e estabilidade administrativa ao mesmo tempo.



















