A proibição das bets no Brasil abriu um problema financeiro imediato para os clubes.
Em 2025, empresas de apostas esportivas destinaram cerca de R$ 1,03 bilhão em patrocínios aos clubes da Série A, segundo levantamento da consultoria Convocados.
O montante cresceu aproximadamente 66% em relação aos R$ 618 milhões registrados no ano anterior.
Agora, com a Medida Provisória nº 1.394/2026 proibindo também publicidade, marketing e patrocínios relacionados às apostas de quota fixa, os clubes terão de encontrar alternativas para substituir uma das principais fontes comerciais do futebol brasileiro.
Bets responderam por mais de R$ 1 bilhão
O crescimento das casas de apostas dentro do futebol foi rápido.
Em 2025, aproximadamente R$ 1,03 bilhão dos patrocínios recebidos pelos clubes da Série A teve origem nas bets.
O valor representou cerca de 7,2% das receitas totais de R$ 14,3 bilhões registradas pelos clubes que estavam na elite naquela temporada.
Outro levantamento, utilizando metodologia e base financeira diferentes, calcula R$ 1,14 bilhão em aportes e participação de 7,9% nas receitas.
Independentemente do recorte, os dados mostram uma exposição superior a R$ 1 bilhão por temporada.
Dependência varia muito entre os clubes
O impacto não será igual para todos.
Algumas equipes possuem uma parcela relativamente pequena do orçamento ligada às apostas, enquanto outras construíram contratos comerciais muito mais dependentes do setor.
Dados financeiros de 2025 apontam que, entre os clubes então integrantes da Série A, quatro ultrapassavam 10% de dependência direta dessas receitas:
Corinthians: 17,3%
Flamengo: 12,71%
Sport: 12,64%
Juventude: 10,49%
Isso significa que a necessidade de substituir esses contratos pode ser especialmente relevante para determinados clubes.
Flamengo tem contrato de R$ 268,5 milhões por ano
Em 2026, o maior acordo individual do futebol brasileiro com uma casa de apostas pertence ao Flamengo.
O contrato com a Betano alcança R$ 268,5 milhões anuais.
Outros grandes clubes também possuem acordos expressivos.
Entre os valores divulgados nesta temporada aparecem contratos como os do Corinthians com a Esportes da Sorte, Palmeiras com a Sportingbet, São Paulo com a Superbet, Atlético-MG com a H2bet, Botafogo com a Vbet e Fluminense com a Superbet.
As bets ocupam justamente alguns dos espaços comerciais mais valiosos das camisas brasileiras.
13 clubes da Série A têm bet como patrocinadora máster
Levantamento do Meio & Mensagem realizado antes da publicação da MP identificou 13 dos 20 clubes da Série A de 2026 com casas de apostas ocupando o patrocínio máster.
A presença já havia diminuído em relação a 2025, quando 18 dos 20 clubes da elite exibiam empresas do setor no principal espaço comercial do uniforme.
Mesmo com essa retração, as bets continuaram concentrando alguns dos contratos de maior valor do futebol nacional.
Patrocínios terão de desaparecer
A MP publicada em 25 de setembro não proíbe apenas a operação das plataformas.
O artigo 16 veda ações de:
publicidade;
propaganda;
marketing;
comunicação;
patrocínio.
A proibição vale para meios físicos e digitais direcionados ao público brasileiro.
O texto determina ainda que materiais publicitários e sinais de patrocínio sejam retirados em até dez dias contados da publicação da medida.
Isso afeta diretamente uniformes, placas, propriedades digitais e outras ativações comerciais relacionadas às casas de apostas.
Flamengo estima impacto de até R$ 430 milhões
Os clubes já começaram a calcular consequências que vão além do patrocínio máster.
O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, estimou perdas imediatas de aproximadamente R$ 400 milhões a R$ 430 milhões para o próximo ano.
O cálculo rubro-negro considera diferentes receitas relacionadas ao mercado das apostas, e não apenas o valor estampado na camisa.
Por isso, o impacto total sobre o futebol pode ser superior à soma dos contratos de patrocínio direto.
Clubes terão de substituir patrocinadores
O problema imediato passa a ser comercial.
Espaços que atualmente rendem dezenas ou centenas de milhões de reais precisarão encontrar novos compradores.
Isso não significa necessariamente que toda essa receita desaparecerá.
Os clubes podem negociar com empresas de outros setores e substituir parte dos contratos.
A questão é saber se conseguirão encontrar patrocinadores dispostos a pagar valores semelhantes aos oferecidos pelas casas de apostas.
Governo discute linha de crédito bilionária
Paralelamente, clubes e governo federal discutem um programa de reestruturação financeira que pode envolver até R$ 20 bilhões em crédito.
As negociações começaram antes da proibição das bets, mas ganharam urgência diante do novo cenário.
O objetivo seria permitir que clubes e SAFs substituíssem dívidas caras por financiamentos com juros menores e prazos maiores.
Esse eventual programa, porém, não substitui os patrocínios.
Crédito precisa ser devolvido. Receita comercial, não.
Por isso, mesmo que o programa avance, os departamentos comerciais dos clubes continuarão precisando encontrar novas fontes de receita.
Conclusão
O fim das bets abre uma mudança profunda no mercado comercial do futebol brasileiro.
Em 2025, as casas de apostas colocaram mais de R$ 1 bilhão em patrocínios nos clubes da Série A, e em 2026 continuam responsáveis por alguns dos maiores contratos do país.
A MP publicada pelo governo determina agora a retirada dos sinais de patrocínio em até dez dias.
O impacto final ainda não pode ser calculado como uma perda automática de R$ 1 bilhão, porque os clubes poderão substituir parte desses contratos por empresas de outros setores.
O desafio será outro: descobrir se o mercado tradicional de publicidade conseguirá ocupar esses espaços pagando valores próximos aos que as bets transformaram em padrão nos últimos anos.




















