A polêmica no dérbi entre Manchester United e Manchester City levantou uma dúvida comum entre torcedores: um jogador pode cometer impedimento mesmo sem tocar na bola?
A resposta é sim.
Pela Regra 11 da IFAB, estar em posição de impedimento não é uma infração por si só. O jogador só deve ser punido quando participa ativamente da jogada, seja tocando na bola ou interferindo na ação de um adversário.
Estar impedido não significa cometer impedimento
Esse é o primeiro ponto importante.
Um jogador está em posição de impedimento quando, no momento em que um companheiro toca ou joga a bola, ele está no campo adversário e mais próximo da linha de gol do que a bola e o penúltimo defensor.
Mas a IFAB deixa claro:
a posição de impedimento, sozinha, não é uma infração.
Isso significa que um atacante pode estar claramente à frente da defesa e ainda assim o jogo continuar normalmente se ele não participar da jogada.
Quando o jogador é punido sem tocar na bola?
A Regra 11 prevê diferentes maneiras de um atleta interferir em um adversário.
Um jogador em posição irregular pode ser punido se:
- bloquear claramente a visão de um adversário;
- disputar a bola com um adversário;
- tentar jogar uma bola próxima e essa ação afetar claramente o adversário;
- realizar uma ação evidente que interfira na capacidade de um adversário jogar a bola.
Portanto, não é necessário encostar na bola.
Um exemplo simples
Imagine este lance:
Um atacante está impedido dentro da área.
Um companheiro chuta em direção ao gol.
O atacante não toca na bola, mas pula tentando cabeceá-la na frente do goleiro.
Se esse movimento atrapalhar a reação do goleiro, existe impedimento.
A própria IFAB apresenta praticamente esse exemplo em sua interpretação oficial: se um jogador em posição irregular tenta jogar uma bola próxima e sua ação confunde ou interfere no goleiro, o impedimento deve ser marcado.
E se ele simplesmente ficar parado?
Nesse caso, depende.
Se um jogador estiver impedido, mas permanecer parado longe da disputa e sem bloquear a visão ou movimentação de ninguém, normalmente não há infração.
A IFAB inclusive explica que um atacante pode permanecer parado próximo ao gol quando a bola entra sem necessariamente invalidar o lance. A arbitragem precisa avaliar se houve participação efetiva.
É por isso que nem toda imagem congelada mostrando um jogador adiantado significa que o gol deveria ser anulado.
O que aconteceu no dérbi de Manchester?
O gol de Erling Haaland que decidiu a vitória do Manchester City por 1 a 0 sobre o United gerou exatamente essa discussão.
Haaland estava em posição legal, mas Enzo Fernández aparecia em posição de impedimento e tentou participar da jogada antes de a bola chegar ao norueguês.
Inicialmente, o VAR considerou que Fernández não havia tocado na bola nem interferido suficientemente na defesa e confirmou o gol.
Posteriormente, porém, a entidade responsável pela arbitragem admitiu que o VAR deveria ter tratado o lance como uma decisão subjetiva de interferência e recomendado ao árbitro uma revisão no monitor.
Então o gol deveria ter sido anulado?
A questão não era se Enzo Fernández tocou na bola.
O ponto central era determinar se sua tentativa de jogar a bola influenciou diretamente a capacidade de um defensor do Manchester United participar da jogada.
A própria entidade de arbitragem reconheceu depois do jogo que esse elemento não havia sido analisado corretamente pelo VAR.
Esse caso mostra exatamente por que o impedimento por interferência é uma das situações mais difíceis de interpretar.
Bloquear a visão também é impedimento
Outro exemplo comum acontece com goleiros.
Um atacante pode estar na frente do goleiro no momento de um chute.
Mesmo sem tocar na bola, ele pode ser punido se sua posição obstruir claramente a visão do goleiro e impedir que ele acompanhe a trajetória da finalização.
Por isso, muitos gols são revisados quando existe um atacante entre o chute e o goleiro.
Tentar tocar na bola pode ser suficiente
Existe outra situação importante.
O atacante está impedido, a bola passa próxima dele e ele tenta tocá-la, mas erra.
Ainda assim, pode haver impedimento.
Segundo a IFAB, se essa tentativa de jogar uma bola próxima tiver impacto claro sobre um adversário, a infração deve ser marcada.
Novamente: o toque não é obrigatório.
Disputar a bola também conta
Um jogador impedido também pode ser punido se disputar a bola diretamente com um defensor.
Imagine um lançamento longo.
O atacante está impedido e corre junto com um zagueiro, pressionando-o enquanto a bola chega.
Mesmo que o defensor consiga tocar primeiro, a participação do atacante pode configurar impedimento porque houve uma disputa direta.
Quando uma tentativa não gera impedimento?
A arbitragem precisa determinar se houve impacto real.
Um jogador impedido pode fazer um movimento em direção à bola sem necessariamente cometer infração caso:
- esteja distante da disputa;
- não altere a ação do defensor;
- não bloqueie a visão;
- não participe de uma disputa pela bola.
É justamente essa análise subjetiva que costuma gerar discussões.
Por que o VAR tem dificuldade nesses lances?
O impedimento geométrico é relativamente objetivo.
As linhas mostram se determinado jogador estava ou não à frente do penúltimo defensor.
O problema aparece na segunda etapa: ele interferiu ou não na jogada?
Essa decisão exige interpretação.
Foi exatamente o que aconteceu no dérbi de Manchester. O VAR conseguiu determinar que Haaland estava em posição legal, mas a discussão passou a ser sobre o comportamento do outro atacante.
Resumindo a regra
| Situação | Impedimento? |
| Jogador impedido toca na bola | Sim |
| Jogador impedido bloqueia visão do goleiro | Sim |
| Jogador impedido disputa a bola | Sim |
| Jogador impedido tenta jogar a bola e interfere no adversário | Sim |
| Jogador impedido permanece parado sem interferir | Não necessariamente |
| Jogador impedido está longe da jogada | Normalmente não |
Conclusão
Um jogador não precisa tocar na bola para cometer impedimento.
A Regra 11 determina que também existe infração quando o atleta interfere diretamente em um adversário, seja bloqueando sua visão, disputando a bola ou realizando uma ação que afete claramente sua capacidade de participar da jogada.
O lance do dérbi de Manchester mostrou exatamente essa diferença.
A posição irregular pode ser identificada por linhas. Já a interferência exige interpretação — e é justamente aí que surgem algumas das maiores controvérsias do VAR.

























