Clube atrasa repasses a credores do Regime Centralizado de Execuções, que reúne aproximadamente R$ 239 milhões em dívidas. Justiça analisa cobranças, enquanto diretoria promete esclarecimentos.
O Corinthians deixou de repassar R$ 10,1 milhões aos credores do Regime Centralizado de Execuções (RCE) e pode perder a proteção judicial que impede bloqueios e penhoras relacionados às dívidas incluídas no acordo.
A informação foi divulgada nesta quinta-feira (22), em reportagem do UOL baseada em documentos do processo.
Os atrasos envolvem pagamentos referentes a julho e agosto de 2026. Credores já solicitaram providências à Justiça, enquanto a administradora judicial cobra explicações sobre a movimentação financeira do clube.
Corinthians acumula R$ 10,1 milhões em repasses pendentes
Segundo os documentos apresentados no processo, os valores questionados são:
- Julho: R$ 2.499.657,51 pendentes.
- Agosto: R$ 7.641.299,28 pendentes.
- Total: R$ 10.140.956,79.
O Corinthians deveria ter destinado aproximadamente R$ 6 milhões aos credores no pagamento referente a julho, mas depositou apenas R$ 3,5 milhões, com atraso.
A parcela seguinte, de R$ 7,6 milhões, ainda não havia sido paga até 16 de outubro, conforme documentos mencionados na reportagem.
Os atrasos levaram credores a questionar o cumprimento do plano de reorganização financeira.
O que é o RCE e por que ele é importante?
O Regime Centralizado de Execuções permite concentrar determinadas cobranças judiciais em um único processo, organizando os pagamentos aos credores.
Enquanto o clube cumpre as condições do regime, as execuções abrangidas pelo acordo ficam centralizadas, reduzindo o risco de bloqueios simultâneos de recursos.
No caso do Corinthians, o plano envolve aproximadamente R$ 239 milhões em dívidas civis.
O valor não representa todo o endividamento do clube, estimado em aproximadamente R$ 2,7 bilhões.
A manutenção do RCE é considerada importante porque permite organizar os pagamentos sem comprometer imediatamente o funcionamento das atividades do Corinthians.
Credores pedem suspensão do acordo
A antiga patrocinadora Pixbet, por meio da empresa Pixstar, solicitou à Justiça o reconhecimento do descumprimento do plano.
A RC Consultoria, ligada ao empresário Carlos Leite, também questionou a falta de repasses e pediu a suspensão do regime.
Caso a Justiça acolha os pedidos e retire os efeitos protetivos do RCE, os credores poderão voltar a buscar medidas individuais de cobrança, incluindo bloqueios de contas e penhoras de bens.
Até a atualização desta quinta-feira (22), não havia confirmação de que o RCE tivesse sido revogado.
Ministério Público também cobra explicações
O Ministério Público de São Paulo solicitou esclarecimentos sobre os pagamentos pendentes e outras operações financeiras do Corinthians.
Entre os pontos questionados estão a documentação referente a movimentações da Neo Química Arena e valores relacionados ao contrato com a Nike.
A administradora judicial Laspro também contesta a forma como o Corinthians contabiliza determinados pagamentos realizados fora do RCE.
Um dos casos envolve um fundo que assumiu a dívida do clube com o Talleres, da Argentina, pela contratação de Rodrigo Garro.
Existe divergência sobre a possibilidade de descontar esses pagamentos dos recursos destinados aos credores do regime.
Os questionamentos exigem documentação e análise judicial. Eles não representam, por si só, comprovação de desvio de recursos.
Dívida aumenta mesmo com pagamentos
Outro problema é o crescimento do saldo devedor.
Segundo o levantamento divulgado pelo UOL, o Corinthians tinha aproximadamente R$ 191 milhões reconhecidos no processo quando solicitou o RCE, em dezembro de 2024.
Em setembro de 2026, o valor já se aproximava de R$ 238 milhões.
O aumento ocorreu apesar dos pagamentos realizados, principalmente por causa dos juros e da inclusão de novos créditos.
A correção pela taxa Selic acrescenta atualmente entre R$ 2,5 milhões e R$ 2,8 milhões mensais ao saldo, dificultando a redução efetiva da dívida.
Corinthians também enfrenta pendência de R$ 8 milhões na CNRD
A crise financeira não está restrita ao RCE.
O clube também possui um acordo de aproximadamente R$ 76 milhões na Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD), vinculada à CBF.
Uma parcela de R$ 8 milhões venceu em 19 de outubro e continuava pendente segundo a reportagem desta quinta-feira.
Diferentemente do RCE, o descumprimento das determinações da CNRD pode provocar sanções esportivas, como restrições ao registro de jogadores e bloqueio de premiações.
O Corinthians já enfrenta punições que dificultam a inscrição de novos reforços.
O que diz o Corinthians?
Em nota oficial divulgada nesta quinta-feira (22), o Corinthians afirmou que considera o RCE fundamental para sua reorganização financeira.
O clube informou que acompanha a execução do plano e mantém diálogo com os envolvidos.
A diretoria também declarou que apresentará esclarecimentos sobre valores, contratos e movimentações financeiras nos autos do processo.
O comunicado não apresentou publicamente um cronograma de quitação dos R$ 10,1 milhões questionados.
Conclusão
O atraso de R$ 10,1 milhões coloca o Corinthians diante de mais um desafio financeiro.
O risco principal é a eventual perda da proteção judicial oferecida pelo RCE, que poderia permitir a retomada de cobranças individuais contra o patrimônio do clube.
A situação ainda depende de análise da Justiça, mas aumenta a pressão sobre a gestão de Osmar Stabile em um momento de dificuldades esportivas, financeiras e administrativas.




















