David Trezeguet precisou de seis anos para ocupar os dois lados de uma das histórias mais cruéis do futebol.
Em 2000, marcou o gol que arrancou da Itália o título da Eurocopa.
Em 2006, diante do mesmo adversário, foi o único jogador francês a desperdiçar uma cobrança na decisão por pênaltis da Copa do Mundo.
Entre os dois momentos estava Zinedine Zidane.
O camisa 10 levantou a Euro em 2000 e encerrou sua carreira expulso na final de 2006 após a histórica cabeçada em Marco Materazzi.
Duas finais.
As mesmas seleções.
E destinos completamente invertidos.
Itália estava a segundos do título em 2000
A primeira decisão aconteceu em 2 de julho de 2000, em Roterdã.
França e Itália disputavam a final da Eurocopa.
A Azzurra abriu o placar aos 55 minutos.
Gianluca Pessotto cruzou pela direita e Marco Delvecchio apareceu para completar.
A vantagem permaneceu até os acréscimos.
A Itália estava muito perto do título.
Então a França encontrou seu último ataque.
Wiltord salvou a França
Aos 94 minutos, Fabien Barthez lançou a bola para o campo ofensivo.
David Trezeguet disputou pelo alto e a jogada continuou até chegar a Sylvain Wiltord.
O atacante finalizou cruzado.
Francesco Toldo ainda tocou na bola, mas não conseguiu evitar o empate.
Era 1 a 1.
Naquele período, a Euro ainda utilizava o sistema do gol de ouro.
Quem marcasse primeiro durante a prorrogação seria campeão.
Trezeguet decidiu a Euro com um chute
Aos 103 minutos, Robert Pirès avançou pela esquerda e cruzou para trás.
Trezeguet apareceu dentro da área.
O atacante finalizou de primeira, com a perna esquerda.
A bola entrou no alto do gol de Toldo.
A partida acabou naquele instante.
França 2 x 1 Itália.
Gol de ouro.
Título francês.
A França havia conquistado a Copa do Mundo de 1998 e, dois anos depois, também se tornava campeã europeia.
Trezeguet tinha 22 anos.
O destino colocou Trezeguet no futebol italiano
A história ganhou uma camada adicional porque Trezeguet estava prestes a começar uma longa relação com a própria Itália.
Naquele mesmo período, o atacante deixou o Monaco para defender a Juventus.
O francês que havia acabado com o sonho italiano na Euro se tornaria um dos grandes atacantes do clube de Turim.
Foram dez temporadas na Juventus.
Mas seu nome voltaria a se cruzar com a seleção italiana seis anos depois.
E novamente em uma final.
2006 colocou França e Itália no maior palco
Em 9 de julho de 2006, França e Itália entraram no Estádio Olímpico de Berlim para decidir a Copa do Mundo.
Para Zidane, havia um detalhe ainda maior.
Aquela seria sua última partida como jogador profissional.
A despedida começou de maneira extraordinária.
Aos sete minutos, a França teve um pênalti.
Zidane foi para a cobrança.
Zidane tentou uma cavadinha em uma final de Copa
Diante de Gianluigi Buffon, Zidane escolheu uma das cobranças mais arriscadas possíveis.
Bateu de cavadinha.
A bola tocou no travessão, quicou depois da linha e saiu.
Gol.
França 1 a 0.
Em sua última partida profissional, Zidane havia acabado de marcar em uma final de Copa do Mundo.
Mas a Itália respondeu rapidamente.
Materazzi empatou
Aos 19 minutos, Andrea Pirlo cobrou escanteio.
Marco Materazzi subiu e marcou de cabeça.
1 a 1.
O mesmo Materazzi que havia cometido o pênalti que originou o gol francês agora empatava a decisão.
O placar permaneceu igual durante todo o segundo tempo.
A final foi para a prorrogação.
Buffon evitou o segundo gol de Zidane
Zidane ainda esteve muito perto de marcar novamente.
Na prorrogação, Willy Sagnol cruzou e o camisa 10 francês cabeceou com força.
Buffon reagiu e desviou a bola por cima do travessão.
Foi uma das grandes defesas daquela Copa.
Pouco depois, a história do jogo mudaria completamente.
A cabeçada que encerrou a carreira de Zidane
Já na parte final da prorrogação, Zidane e Materazzi trocaram palavras.
O francês caminhou alguns passos.
Depois voltou.
E acertou uma cabeçada no peito do defensor italiano.
Materazzi caiu.
Após a consulta da arbitragem, Zidane recebeu cartão vermelho aos 110 minutos.
Sua carreira terminou ali.
Não com o apito final.
Mas caminhando sozinho para fora do campo durante uma final de Copa do Mundo.
A decisão chegou aos pênaltis
Mesmo com um jogador a mais, a Itália não conseguiu marcar.
Depois de 120 minutos:
Itália 1 x 1 França.
O título mundial seria decidido nos pênaltis.
E David Trezeguet estava novamente diante da Itália.
O herói de 2000 virou o único francês a perder
A Itália converteu suas cobranças.
Andrea Pirlo marcou.
Materazzi marcou.
Daniele De Rossi marcou.
Alessandro Del Piero marcou.
Do lado francês, Sylvain Wiltord converteu a primeira cobrança.
Então veio Trezeguet.
O atacante bateu forte.
A bola acertou o travessão, quicou para baixo e não entrou.
Foi a única cobrança desperdiçada na disputa.
É difícil imaginar um contraste maior.
Em 2000, Trezeguet havia marcado o gol que terminou imediatamente uma final contra a Itália.
Em 2006, foi o único francês que não conseguiu marcar na decisão contra o mesmo adversário.
Grosso colocou a quarta estrela na camisa italiana
A França ainda converteu com Eric Abidal e Willy Sagnol.
Mas a Itália não desperdiçou nenhuma cobrança.
Fabio Grosso teve a oportunidade de definir.
Bateu no canto.
Gol.
Itália 5 x 3 França nos pênaltis.
A Azzurra conquistava sua quarta Copa do Mundo.
Seis anos inverteram completamente os papéis
As duas decisões formam quase uma narrativa espelhada.
2000: a Itália estava a segundos do título, a França empatou e Trezeguet decidiu.
2006: França e Itália empataram, Zidane foi expulso e Trezeguet desperdiçou a única cobrança da disputa.
Na primeira final, os franceses comemoraram.
Na segunda, os italianos.
Trezeguet esteve diretamente ligado aos dois desfechos.
Zidane também.
Em 2000, levantou o troféu europeu como um dos símbolos da melhor seleção do continente.
Em 2006, deixou o campo antes de saber que sua última partida terminaria com a Itália campeã mundial.
Conclusão
Algumas histórias do futebol precisam de anos para serem completadas.
David Trezeguet marcou contra a Itália um dos gols mais importantes da história da seleção francesa em 2000.
Seis anos depois, diante do mesmo adversário e novamente em uma final, acertou o travessão na única cobrança desperdiçada da disputa de pênaltis.
No meio dessa história estava Zidane.
Campeão europeu em 2000.
Autor de um gol de cavadinha em 2006.
Expulso aos 110 minutos de sua última partida profissional.
A França tirou uma Euro da Itália.
A Itália respondeu levando uma Copa do Mundo diante da França.
Entre Roterdã e Berlim foram apenas seis anos.
Mas eles produziram duas das finais mais memoráveis do futebol europeu.

























