Entenda por que um clube pode contratar apenas parte dos direitos econômicos de um atleta, quem recebe dinheiro numa futura venda, como funcionam cláusulas de mais-valia e percentual de revenda e por que isso não significa que dois clubes “possuem” o jogador ao mesmo tempo
Notícias sobre transferências de jogadores frequentemente trazem frases como:
“Clube comprou 80% dos direitos econômicos.”
“Equipe manteve 20% para uma futura venda.”
“Negociação envolve 60% do passe.”
“Clube terá direito a 30% da mais-valia.”
Para quem acompanha futebol sem conhecer a estrutura jurídica e financeira das transferências, essas expressões podem produzir uma conclusão errada: a de que diferentes clubes são literalmente proprietários de partes do jogador.
Não funciona dessa forma.
Quando um clube compra 80% dos direitos econômicos, isso normalmente significa que ele adquiriu uma determinada participação nos benefícios financeiros previstos numa futura transferência, conforme os contratos celebrados entre as partes.
O atleta, porém, não fica “80% registrado” em um clube e “20% registrado” em outro.
Seu registro esportivo segue uma lógica diferente.
É justamente essa separação entre registro do jogador e participação econômica em transferências futuras que precisa ser compreendida para entender grande parte do mercado da bola.
O que são direitos econômicos no futebol?
Direitos econômicos são, de maneira simplificada, os benefícios financeiros relacionados a uma futura transferência de um jogador.
Imagine que o Clube A possui determinado direito econômico relacionado ao atleta e negocia parte dessa participação com o Clube B.
O Clube B passa a ter direito à parcela estabelecida contratualmente caso determinadas condições de transferência aconteçam no futuro.
Essa divisão permite que clubes negociem jogadores sem necessariamente abrir mão de toda a valorização futura.
É especialmente comum com atletas jovens.
Um clube pode aceitar receber menos dinheiro agora em troca de preservar participação numa eventual venda posterior.
Comprar 80% não significa ser dono de 80% do jogador
Esse é provavelmente o principal erro de interpretação.
Um jogador de futebol não é uma propriedade que possa ser fisicamente dividida entre empresas.
Quando uma notícia diz que determinado clube adquiriu “80% do jogador”, normalmente está abreviando uma estrutura relacionada aos direitos econômicos derivados de futuras transferências.
O jogador continua sendo uma pessoa vinculada por um contrato de trabalho e registrada esportivamente conforme os regulamentos aplicáveis.
Portanto:
80% dos direitos econômicos não significa 80% do registro esportivo.
A porcentagem está relacionada ao aspecto financeiro do negócio.
E o que acontece com os outros 20%?
Depende do contrato.
O clube vendedor pode manter essa parcela com objetivo de ganhar dinheiro numa futura valorização.
Imagine a seguinte operação:
O Clube A possui um jovem atacante.
O Clube B oferece R$ 20 milhões por 80% dos direitos econômicos.
O Clube A aceita e mantém 20%.
Dois anos depois, o Clube B vende esse jogador ao Clube C por R$ 100 milhões.
Num exemplo extremamente simplificado, considerando apenas essa divisão econômica:
| Participação | Valor sobre R$ 100 milhões |
| Clube B — 80% | R$ 80 milhões |
| Clube A — 20% | R$ 20 milhões |
Na realidade, a distribuição pode sofrer alterações por mecanismos de solidariedade, cláusulas contratuais, comissões, impostos e outros componentes.
Mas o exemplo demonstra a lógica básica.
Por que um clube venderia apenas 80%?
Porque existe uma troca entre dinheiro imediato e potencial futuro.
O clube vendedor pode precisar de recursos agora, mas acreditar que o jogador ainda vai se valorizar.
Em vez de vender toda sua participação por R$ 20 milhões, pode negociar apenas 80% e preservar 20%.
Se aquele atleta posteriormente for vendido por R$ 100 milhões ou R$ 200 milhões, a parcela mantida poderá produzir receita adicional.
É uma forma de participar da valorização futura.
E por que o comprador aceitaria isso?
Porque pode reduzir o custo inicial da contratação.
Imagine dois cenários.
No primeiro, o vendedor exige R$ 30 milhões por 100%.
No segundo, aceita R$ 20 milhões por 80%.
O comprador economiza R$ 10 milhões imediatamente e consegue contratar o jogador.
Em contrapartida, abre mão de parte de uma eventual venda futura.
É uma negociação de risco e retorno.
O que significa comprar 50%?
Significa que a participação econômica negociada é ainda menor.
Suponha que o Clube A negocie 50% por R$ 10 milhões e mantenha outros 50%.
Se mais tarde houver uma transferência de R$ 80 milhões, uma divisão puramente proporcional produziria:
| Clube | Participação | Parcela teórica |
| Clube comprador | 50% | R$ 40 milhões |
| Clube anterior | 50% | R$ 40 milhões |
Mais uma vez, esse cálculo é apenas didático.
Uma operação real pode possuir outras cláusulas.
Comprar 90% é melhor do que comprar 50%?
Do ponto de vista da participação numa futura venda, sim.
Um clube que controla economicamente 90% de uma operação potencial possui exposição financeira maior do que outro que controla apenas 50%.
Mas também pode ter pago mais pela aquisição.
Tudo depende do preço.
Imagine um jogador avaliado em R$ 20 milhões.
O comprador pode escolher:
Opção A: pagar R$ 10 milhões por 50%.
Opção B: pagar R$ 18 milhões por 90%.
Se o atleta nunca mais for vendido por um valor elevado, pagar menos inicialmente pode ter sido melhor.
Se for posteriormente negociado por R$ 100 milhões, possuir 90% será muito mais vantajoso.
Por isso, a compra de direitos econômicos também envolve expectativa sobre valorização futura.
Direitos econômicos e direitos federativos são a mesma coisa?
Não.
A expressão “direitos federativos” ainda aparece muito no vocabulário do futebol, especialmente no Brasil, mas seu uso popular frequentemente mistura conceitos diferentes.
O elemento esportivo está relacionado ao registro do jogador por um clube e ao vínculo contratual que permite sua utilização nas competições, conforme as regras aplicáveis.
Já os direitos econômicos estão ligados aos benefícios financeiros relacionados à transferência.
A diferença pode ser resumida assim:
| Conceito | O que representa |
| Registro esportivo | Qual clube possui o atleta registrado para competir |
| Contrato de trabalho | Relação profissional entre jogador e clube |
| Direitos econômicos | Participação financeira relacionada à transferência |
| Cláusula de revenda | Percentual de uma futura negociação previsto contratualmente |
| Mais-valia | Percentual calculado sobre o lucro obtido numa futura venda |
Misturar esses conceitos gera boa parte da confusão encontrada no mercado da bola.
Dois clubes podem ter participação econômica?
Sim, dentro da estrutura permitida pelas regras e pelos contratos entre clubes.
Por exemplo:
Palmeiras vende um jogador ao Clube B e mantém determinada participação numa futura transferência.
O jogador passa a atuar e ser registrado pelo Clube B.
Isso não significa que Palmeiras e Clube B controlam conjuntamente a carreira esportiva do atleta.
Existe uma relação econômica prevista no contrato de transferência.
Essa diferença é fundamental.
E empresas ou investidores podem comprar 30% de um jogador?
Aqui existe uma restrição importante.
A FIFA proíbe o modelo conhecido como Third-Party Ownership, ou TPO, no qual um terceiro externo ao relacionamento permitido entre clubes adquire participação nos benefícios econômicos de uma futura transferência.
A proibição entrou em vigor em 1º de maio de 2015.
A regra foi criada para evitar situações nas quais investidores, fundos, empresas ou outros terceiros pudessem adquirir interesses financeiros sobre futuras transferências e potencialmente interferir nas decisões esportivas dos clubes.
Portanto, a estrutura atual é muito diferente daquela vista em determinadas décadas do futebol sul-americano, quando empresários e fundos apareciam frequentemente como proprietários de percentuais de atletas.
Por que a FIFA proibiu terceiros?
Existiam preocupações relacionadas à integridade do sistema.
Imagine um fundo de investimentos financiando parte de um jogador e possuindo direito a 40% da próxima transferência.
Esse investidor teria interesse financeiro direto em fazer o jogador ser vendido.
Poderia surgir pressão para:
aumentar artificialmente a frequência de transferências;
interferir na escolha do destino;
pressionar clube e atleta;
priorizar retorno financeiro sobre decisão esportiva;
criar conflitos de interesse entre diferentes equipes.
A FIFA passou a considerar esse tipo de estrutura incompatível com a independência necessária aos clubes.
O que é Third-Party Influence?
Além da propriedade econômica por terceiros, existe outro conceito importante: Third-Party Influence, ou TPI.
A FIFA também proíbe contratos que permitam a outra parte ou a terceiros influenciar indevidamente a independência de um clube em questões relacionadas a emprego e transferências.
Em termos simples:
Um clube pode estabelecer condições econômicas numa negociação.
Mas não deve conceder a outro agente econômico poder de controlar decisões esportivas ou contratuais que deveriam pertencer ao próprio clube.
Essa distinção protege a autonomia das equipes.
Então como um clube pode manter 20% sem violar a regra?
Porque um clube anterior possui tratamento diferente de um investidor externo dentro da estrutura regulatória de transferências.
Uma venda entre clubes pode conter mecanismos que preservem benefícios econômicos futuros ao clube vendedor.
É por isso que vemos operações como:
“Palmeiras vende 70% e mantém 30%.”
“Santos negocia 80% e preserva 20%.”
“Flamengo terá direito a percentual numa futura transferência.”
Isso não equivale ao antigo modelo no qual um fundo de investimentos comprava parte dos direitos econômicos do jogador.
O que é cláusula de venda futura?
É um mecanismo contratual pelo qual o clube vendedor preserva direito a receber um percentual quando o jogador for novamente transferido.
Exemplo:
Clube A vende jogador ao Clube B por R$ 20 milhões.
Além do pagamento inicial, fica estabelecido que o Clube A receberá 20% de uma futura transferência.
Posteriormente, o Clube B vende o atleta por R$ 100 milhões.
Em uma cláusula calculada sobre o valor total, os 20% corresponderiam a R$ 20 milhões.
Mas atenção:
Nem toda cláusula é calculada sobre o valor bruto da venda.
É aí que entra outro conceito.
O que é cláusula de mais-valia?
A cláusula de mais-valia calcula o percentual apenas sobre o ganho obtido na valorização do jogador.
Suponha:
Clube B comprou o jogador por R$ 20 milhões.
Depois vendeu por R$ 100 milhões.
A valorização foi:
R$ 100 milhões − R$ 20 milhões = R$ 80 milhões.
Se o Clube A tiver direito a 20% da mais-valia:
20% de R$ 80 milhões = R$ 16 milhões.
Isso é diferente de receber 20% sobre a venda total.
Compare:
| Tipo de cláusula | Base de cálculo | Valor recebido |
| 20% da venda total | R$ 100 milhões | R$ 20 milhões |
| 20% da mais-valia | R$ 80 milhões | R$ 16 milhões |
Por isso, duas matérias dizendo apenas “clube manteve 20%” podem estar falando de contratos economicamente muito diferentes.
Percentual mantido e cláusula de revenda são exatamente iguais?
Não necessariamente.
No noticiário esportivo, essas expressões muitas vezes são utilizadas como se fossem equivalentes.
Contratualmente, porém, podem representar estruturas diferentes.
Um clube pode conservar determinada participação econômica prevista no acordo.
Ou pode vender integralmente sua posição anterior e receber em troca uma cláusula contratual que garante percentual de uma futura transferência.
O resultado financeiro pode parecer semelhante, mas a construção jurídica do contrato pode ser diferente.
Para o torcedor, o ponto mais importante é verificar sobre qual valor o percentual será calculado.
Se um clube possui 20%, pode impedir a venda?
Não automaticamente.
Possuir uma expectativa ou participação econômica relacionada à futura transferência não significa necessariamente controlar a decisão esportiva.
Quem possui o contrato e o registro do atleta continua tendo papel central na negociação, além, naturalmente, da necessidade de consentimento do próprio jogador para mudar de clube e assinar um novo contrato.
As condições exatas dependem dos contratos celebrados.
Portanto, dizer simplesmente que “o clube possui 20% e pode barrar qualquer negócio” seria incorreto sem conhecer as cláusulas específicas.
O jogador precisa aceitar a transferência?
Sim.
Um jogador não pode simplesmente ser vendido como uma mercadoria e obrigado a trabalhar para outro clube.
Uma transferência exige uma nova relação contratual.
O clube comprador precisa chegar a um acordo com o atleta sobre salário, duração do vínculo e demais condições.
Por isso, mesmo quando dois clubes acertam o valor da transferência, o negócio pode fracassar se o jogador não aceitar o destino ou não chegar a acordo contratual.
Então por que os clubes dizem “vendemos o jogador”?
É uma simplificação jornalística e comercial.
Na prática, o que está sendo negociado envolve a transferência do registro esportivo, a rescisão ou término da relação contratual anterior e a celebração de novo contrato, além das compensações financeiras acordadas entre os clubes.
O jogador participa necessariamente do processo.
O que é mecanismo de solidariedade da FIFA?
Existe ainda outra parcela que pode aparecer numa transferência: o mecanismo de solidariedade.
Ele não deve ser confundido com percentual de direitos econômicos.
A FIFA estabelece um sistema para recompensar clubes que participaram da formação de um jogador.
Quando determinadas transferências ocorrem, uma parcela da compensação pode ser destinada aos clubes formadores conforme os critérios regulamentares.
A distribuição utiliza o histórico de formação do atleta.
Desde 2022, a FIFA Clearing House participa do processo de cálculo e distribuição dessas recompensas.
Quanto dinheiro já passa pela FIFA Clearing House?
O tamanho desse mecanismo mostra sua importância econômica.
Em julho de 2026, a FIFA informou que quase US$ 1 bilhão em recompensas de formação havia sido gerado desde o início da Clearing House, em novembro de 2022.
Mais de US$ 639 milhões já haviam sido efetivamente distribuídos.
Somente transferências envolvendo jogadores convocados para a Copa do Mundo de 2026 haviam gerado cerca de US$ 221 milhões em compensações de formação e contribuições de solidariedade.
Portanto, clubes formadores podem receber dinheiro numa transferência mesmo quando já não possuem qualquer participação econômica contratual naquele jogador.
Solidariedade e percentual de venda são coisas diferentes?
Completamente diferentes.
Veja:
Percentual de venda futura
Surge de uma negociação contratual entre clubes.
Exemplo: Palmeiras mantém 20% de determinada futura transferência.
Mecanismo de solidariedade
Surge das regras da FIFA.
O clube recebe porque participou da formação do jogador durante os períodos considerados pelo regulamento.
Um clube pode ter direito aos dois mecanismos simultaneamente, dependendo do caso.
O que é compensação por formação?
Também existe a training compensation, ou compensação por formação.
É outro mecanismo definido pelas regras da FIFA para recompensar clubes que investiram na educação e desenvolvimento de atletas jovens.
Não deve ser confundido com solidariedade, embora ambos façam parte do sistema conhecido como training rewards.
A própria FIFA diferencia:
Training compensation: relacionada à formação e a determinados eventos da carreira profissional do atleta.
Solidarity contribution: relacionada a valores pagos em futuras transferências nas circunstâncias previstas pelo regulamento.
Os cálculos possuem regras próprias.
Por que isso é importante para clubes pequenos?
Porque uma transferência realizada muitos anos depois pode produzir receita inesperada.
Imagine um jogador formado parcialmente por um clube pequeno no interior do Brasil.
Ele sai jovem, passa por outra equipe, chega à Europa e posteriormente é vendido por € 80 milhões.
Mesmo que o clube original não tenha mantido 10%, 20% ou qualquer participação econômica contratual, ele pode ter direito a uma parcela do mecanismo de solidariedade se preencher os requisitos regulamentares.
Para equipes com receitas pequenas, esses pagamentos podem ter enorme impacto financeiro.
Quem recebe quando um jogador de R$ 100 milhões é vendido?
Não existe uma resposta universal.
Uma transferência pode envolver:
clube vendedor;
clubes anteriores com participação ou cláusula de venda futura;
clubes formadores via mecanismos da FIFA;
agentes, conforme contratos e regulamentação;
impostos e encargos;
outras obrigações contratuais.
É por isso que o valor publicado na manchete quase nunca representa automaticamente o dinheiro líquido que entra no caixa do clube vendedor.
Exemplo completo: venda de R$ 100 milhões
Imagine este cenário hipotético.
O Clube A vendeu anteriormente um jogador ao Clube B por R$ 20 milhões e preservou 20% sobre uma futura venda.
Agora, o Clube B negocia esse atleta com o Clube C por R$ 100 milhões.
Simplificando e ignorando outras deduções:
Clube A: recebe R$ 20 milhões.
Clube B: ficaria inicialmente com R$ 80 milhões.
Mas ainda podem existir:
mecanismo de solidariedade;
comissões;
impostos;
outras cláusulas.
Logo, o Clube B não necessariamente terá R$ 80 milhões líquidos disponíveis.
E se os 20% forem de mais-valia?
A conta muda.
Compra original: R$ 20 milhões.
Venda futura: R$ 100 milhões.
Mais-valia: R$ 80 milhões.
20% da mais-valia: R$ 16 milhões.
Portanto:
Clube A: R$ 16 milhões.
Clube B: R$ 84 milhões antes das demais deduções.
Apenas quatro palavras — “20% de futura venda” ou “20% da mais-valia” — podem representar milhões de reais de diferença.
Por que clubes compram apenas 60% de jovens promessas?
Porque o risco de uma promessa é maior.
Um jogador de 18 anos pode se transformar em estrela internacional.
Também pode não conseguir se firmar profissionalmente.
Ao comprar apenas 60%, o clube reduz o investimento inicial.
O vendedor, por outro lado, aceita receber menos agora porque acredita que a valorização futura compensará.
É uma espécie de divisão do risco econômico entre os clubes.
Exemplo com uma promessa
Um clube compra 60% por R$ 12 milhões.
Quatro anos depois, o jogador vale R$ 100 milhões.
Se a estrutura contratual determinar divisão proporcional de 60% e 40%, o comprador teria participação correspondente a R$ 60 milhões e o antigo clube a R$ 40 milhões, antes de outros ajustes.
O vendedor recebeu apenas R$ 12 milhões inicialmente.
Mas sua decisão de manter participação transformou-se em enorme receita futura.
Esse é o cenário ideal para quem mantém percentual.
Naturalmente, o jogador também poderia não se valorizar.
Nesse caso, o comprador teria assumido menos risco ao pagar por apenas 60%.
O que significa vender 100%?
Significa, em linguagem comum do mercado, que o clube abriu mão da participação econômica que poderia preservar naquele negócio, conforme a estrutura contratual adotada.
Mas ainda assim pode eventualmente receber valores futuros por outros mecanismos.
Por exemplo, um clube formador pode ter direito ao mecanismo de solidariedade mesmo depois de vender toda sua participação econômica contratual.
Por isso, “100% vendidos” não significa obrigatoriamente “nunca mais receberá um centavo”.
Um clube pode recomprar uma porcentagem depois?
Pode haver novos acordos entre clubes, desde que respeitem os regulamentos aplicáveis.
Também existem transferências nas quais o clube comprador decide posteriormente adquirir uma participação que havia permanecido com o antigo clube.
Exemplo:
Clube B havia comprado 70%.
Clube A manteve 30%.
Dois anos depois, Clube B oferece R$ 15 milhões pelos 30% restantes.
Se as partes aceitarem, a estrutura econômica muda.
Esse tipo de operação costuma acontecer quando a valorização do atleta aumenta e o clube atual deseja capturar uma parcela maior de uma futura venda.
O que é opção de compra de percentual adicional?
Algumas transferências são estruturadas já prevendo essa possibilidade.
Exemplo:
Clube B compra inicialmente 60%.
O contrato permite adquirir outros 20% por determinado valor.
Se a opção for exercida, passa a deter economicamente 80% dentro dos termos acordados.
Esse tipo de cláusula permite dividir a aquisição em etapas.
O clube vendedor sempre quer manter percentual?
Não.
Às vezes precisa de dinheiro imediatamente.
Suponha:
Oferta A: R$ 15 milhões por 70%.
Oferta B: R$ 25 milhões por 100%.
Um clube em dificuldades financeiras pode preferir receber R$ 25 milhões agora.
Outro, com caixa mais confortável e convicção sobre o potencial do atleta, pode aceitar R$ 15 milhões e preservar 30%.
São decisões estratégicas.
Como os clubes avaliam qual percentual vender?
Normalmente entram na análise:
idade;
potencial técnico;
tempo de contrato;
interesse de outros compradores;
necessidade de caixa;
probabilidade de valorização;
posição do jogador;
histórico de lesões;
mercado internacional;
salário;
capacidade de reposição.
Não existe percentual ideal universal.
O negócio que faz sentido para um jogador pode ser ruim para outro.
Percentual alto sempre significa bom negócio?
Também não.
Imagine um clube que pague R$ 40 milhões por 90% de um jogador que depois seja vendido por apenas R$ 30 milhões.
Ter 90% não tornou a operação boa.
O preço inicial foi alto e o ativo desvalorizou.
Agora imagine outro clube que pagou R$ 5 milhões por 50% de um atleta posteriormente vendido por R$ 100 milhões.
Mesmo possuindo apenas metade, o retorno pode ter sido enorme.
O que importa é a relação entre preço de aquisição, percentual e valorização.
Como saber se uma venda foi realmente boa?
Não basta olhar para o valor da manchete.
É necessário perguntar:
Quanto o clube recebeu inicialmente?
Qual percentual foi vendido?
Quanto permaneceu?
Existem bônus?
Existe cláusula de mais-valia?
Existem parcelas?
Quanto foi investido para contratar o jogador?
Qual o valor contábil restante?
Há comissões?
Existe solidariedade?
O clube precisava vender?
Qual o impacto esportivo da saída?
Só depois dessas perguntas é possível analisar adequadamente uma transferência.
Direitos econômicos também ajudam a explicar o lucro contábil
Existe outra dimensão importante.
O valor recebido numa venda e o lucro contábil não são necessariamente iguais.
Se um clube comprou um jogador por R$ 50 milhões e posteriormente vendeu sua participação por R$ 60 milhões, não significa automaticamente lucro de R$ 60 milhões.
O investimento realizado na contratação precisa ser considerado contabilmente de acordo com as regras aplicáveis.
Por outro lado, atletas formados na própria base podem apresentar estruturas de custo muito diferentes.
Por isso, grandes vendas de jogadores formados internamente costumam ter enorme importância nos balanços dos clubes.
Por que Palmeiras, Flamengo e outros clubes preservam percentuais?
Porque clubes brasileiros passaram a compreender melhor o valor potencial de uma segunda transferência.
Um jovem pode sair do Brasil por € 10 milhões e, três anos depois, ser vendido na Europa por € 60 milhões.
Se o clube brasileiro tiver preservado uma participação relevante, a segunda transferência poderá produzir receita semelhante ou até superior à primeira.
Isso transforma percentual futuro em ativo estratégico.
O percentual também pode valorizar sem o clube fazer nada?
Sim.
Imagine que um clube mantenha 20% de um atleta.
Enquanto o jogador atua em outra equipe, sua valorização pode crescer.
O antigo clube não paga salários.
Não utiliza vaga no elenco.
Não assume diretamente o risco esportivo diário.
Mas sua participação econômica pode se valorizar.
É justamente por isso que clubes frequentemente resistem a vender os percentuais restantes de jovens considerados promissores por valores baixos.
Existe diferença entre passe e direitos econômicos?
Sim.
“Passe” é um termo histórico que continua muito utilizado na linguagem popular, mas não descreve adequadamente toda a estrutura contemporânea.
Durante décadas, o passe esteve associado a um sistema no qual o clube mantinha controle muito maior sobre a movimentação do jogador mesmo após o término de determinados vínculos.
A legislação e as regras esportivas evoluíram.
Hoje, é mais correto falar em:
contrato de trabalho;
registro;
transferência;
compensação de transferência;
participação econômica;
cláusulas de revenda.
Dizer simplesmente “o clube possui o passe do jogador” pode esconder várias diferenças jurídicas importantes.
O que mudou com o caso Bosman?
O futebol moderno também foi profundamente alterado pelo caso Bosman na década de 1990.
A decisão europeia consolidou o princípio de que jogadores, ao final de seus contratos dentro das condições aplicáveis, poderiam mudar de clube sem que a antiga equipe exigisse uma transferência tradicional simplesmente por deter o antigo vínculo.
Isso ajudou a separar definitivamente a ideia de jogador como propriedade permanente de um clube.
Hoje, contratos possuem prazo.
Quando terminam, as condições de transferência mudam substancialmente.
E quando o jogador está no último ano de contrato?
O poder de negociação do clube vendedor pode diminuir.
Se o contrato termina em poucos meses, o comprador sabe que poderá eventualmente tentar contratar o atleta sem pagar a mesma compensação de transferência no futuro, observadas as regras aplicáveis.
Isso pressiona o preço.
Por isso, tempo de contrato é um dos fatores mais importantes na avaliação econômica de jogadores.
Um atacante de 23 anos com quatro anos de contrato possui uma posição negocial muito diferente do mesmo jogador faltando seis meses para ficar livre.
As regras da FIFA vão mudar em 2027?
Sim.
Em 10 de junho de 2026, a FIFA aprovou um novo marco regulatório para o sistema global de transferências.
A nova versão do Regulations on the Status and Transfer of Players, o RSTP, está prevista para entrar em vigor em 1º de janeiro de 2027.
A reforma foi construída depois de negociações envolvendo representantes de jogadores, clubes, ligas e confederações.
Isso significa que qualquer conteúdo evergreen sobre transferências precisa ser revisado quando o novo regulamento entrar efetivamente em vigor.
Até então, este artigo reflete o quadro regulamentar vigente em setembro de 2026.
Resumo: o que significa cada porcentagem?
| Expressão | Significado prático simplificado |
| Clube comprou 50% | Adquiriu metade da participação econômica negociada |
| Clube comprou 80% | Comprador possui participação econômica maior; vendedor preserva 20%, se essa for a estrutura |
| Clube comprou 90% | Vendedor mantém participação pequena de 10% |
| Clube comprou 100% | Vendedor não preservou aquela participação econômica contratual |
| 20% de venda futura | Percentual pode incidir sobre futura transferência, conforme contrato |
| 20% de mais-valia | Percentual incide apenas sobre valorização/lucro definido contratualmente |
| Mecanismo de solidariedade | Pagamento regulamentar a clubes formadores |
| TPO | Participação de terceiros em direitos econômicos de jogadores, proibida pela FIFA desde 2015 |
Cinco erros comuns sobre direitos econômicos
- “O clube é dono de 80% do jogador.”
Não. A porcentagem se refere ao aspecto econômico da operação, não à propriedade da pessoa.
- “Quem possui 20% pode obrigar o jogador a ser vendido.”
Não necessariamente. Participação econômica não significa automaticamente controle sobre a carreira.
- “20% da venda e 20% da mais-valia são a mesma coisa.”
Não. A base de cálculo pode ser completamente diferente.
- “Se vendeu 100%, nunca mais recebe nada.”
Não necessariamente. Mecanismos de formação e outras cláusulas podem gerar pagamentos futuros.
- “Empresário pode comprar metade do passe.”
O antigo modelo de participação econômica de terceiros é proibido pela FIFA desde 2015.
Conclusão
Quando um clube anuncia que comprou 50%, 80% ou 90% dos direitos econômicos de um jogador, isso não significa que o atleta esteja dividido entre diferentes proprietários.
A porcentagem está relacionada à distribuição dos benefícios econômicos previstos numa transferência e às condições estabelecidas contratualmente.
Um clube pode aceitar receber menos dinheiro imediatamente e preservar participação futura porque acredita na valorização do jogador.
O comprador pode preferir adquirir apenas uma parte para reduzir o investimento inicial.
Essas decisões transformam transferências em operações de risco financeiro.
Também é fundamental diferenciar participação econômica de cláusula de venda futura, mais-valia, mecanismo de solidariedade e compensação por formação.
Cada instrumento possui uma lógica diferente.
Além disso, a FIFA proíbe desde 2015 que investidores externos adquiram direitos sobre futuras transferências de jogadores por meio do modelo conhecido como Third-Party Ownership.
Para entender se uma negociação foi realmente boa, portanto, não basta olhar para o valor anunciado.
É preciso saber quanto foi vendido, quanto ficou, sobre qual base será calculado o percentual futuro e quais outros pagamentos fazem parte do negócio.
Essa é a diferença entre simplesmente ler o número de uma transferência e compreender a economia por trás do mercado da bola.


















